'Viagra feminino': o país conservador que autorizou a fabricação e venda do medicamento
Depressão, ansiedade, estresse, baixa autoestima, conflitos no relacionamento, vergonha do parceiro - tudo isso interfere mais no desejo feminino do que no masculino, pontua a professora Lori Brotto, da Universidade da Colúmbia Britânica.
Especialistas explicam que o medicamento pode não ser uma boa solução para todos os casos
"Nós avisamos que não iria funcionar", ela reitera. Então estudante de pós-graduação no prestigioso Kinsey Institute, Prause acompanhava seu mentor quando, no começo dos anos 2000, se envolveu em um dos projetos do viagra feminino. Na primeira reunião com o grupo que conduziria a pesquisa, uma surpresa: apenas homens - a maioria acima dos 50 anos, médicos e sem PhD, ou seja, sem treinamento aprofundado em pesquisa científica. "Tinha uma secretária também, que entrava na sala às vezes para servir bolinhos", ela brinca, emendando que acredita que os envolvidos "estavam lá com a melhor das intenções, que queriam ajudar as mulheres e realmente achavam que estavam diante de algo que poderia fazer isso". Ainda assim, a sensação é de que "não houve um debate razoável sobre o que é resposta sexual feminina - os gatilhos para o desejo e a excitação, a conexão (ou desconexão) entre o que acontece no cérebro e no restante do corpo - e sobre por que aquela abordagem provavelmente não iria funcionar".
6. Ginseng
"E isso não é algo único daquela empresa", completa a cientista. Boolell concorda que a indústria farmacêutica deveria "ter ouvido mais as mulheres". Em 2004, quando a Pfizer anunciou que estava suspendendo seu projeto, ele deu uma série de entrevistas para explicar os motivos. "Há uma desconexão em muitas mulheres entre as mudanças na genitália e as mudanças no cérebro [durante a resposta sexual]", disse na ocasião. "Essa desconexão não existe entre os homens. "Os homens também se beneficiam dos efeitos dos níveis mais elevados de testosterona, que os permite sentir uma forma mais espontânea de desejo", ela acrescenta.
| Produto | Dosagem | Quantidade + Bónus | Preço | |
|---|---|---|---|---|
| Viagra Professional | 100mg | 120 + 4 comprimidos | 262.83€ 250.31€ | |
| Viagra Soft Tabs | 100mg | 120 + 8 comprimidos | 232.21€ 221.15€ | |
| Viagra Genérico | 25mg | 60 + 4 comprimidos | 71.99€ 68.56€ | |
| Viagra Original | 100mg | 92 + 4 comprimidos | 362.88€ 345.60€ | |
| Viagra Genérico | 150mg | 30 + 2 comprimidos | 72.32€ 68.88€ | |
| Viagra Genérico | 200mg | 360 + 10 comprimidos | 481.98€ 459.03€ | |
| Viagra Super Active | 100mg | 270 + 30 comprimidos | 390.61€ 372.01€ | |
| Viagra Genérico | 100mg | 120 + 6 comprimidos | 149.50€ 142.38€ | |
| Viagra Genérico | 100mg | 270 + 10 comprimidos | 270.47€ 257.59€ | |
| Viagra Super Active | 100mg | 120 + 16 comprimidos | 198.37€ 188.92€ | |
| Viagra Genérico | 50mg | 180 + 8 comprimidos | 158.82€ 151.26€ | |
| Viagra Original | 100mg | 120 + 8 comprimidos | 470.39€ 447.99€ | |
| Viagra Original | 100mg | 12 comprimidos | 72.54€ 69.09€ | |
| Viagra Genérico | 100mg | 60 + 4 comprimidos | 96.36€ 91.77€ | |
| Viagra Genérico | 100mg | 180 + 8 comprimidos | 199.37€ 189.88€ | |
| Viagra Original | 100mg | 22 + 2 comprimidos | 120.71€ 114.96€ |
O desejo espontâneo foi durante muito tempo a ideia pré-concebida do que era desejo: uma vontade que simplesmente aparece, como a fome ou a sede.
| Estudo | População | Resultado principal | Ano |
|---|---|---|---|
| Berman et al. | Mulheres com disfunção sexual por ISRS | Melhoria da excitação sem efeito no desejo | 2003 |
| Nurnberg et al. | Mulheres com depressão e disfunção sexual | Redução dos efeitos adversos sexuais dos antidepressivos | 2008 |
| Alexander et al. | Mulheres pós-menopáusicas com diabetes tipo 2 | Sem melhoria significativa na função sexual global | 2011 |
| Laan et al. | Mulheres saudáveis na pré-menopausa | Aumento do fluxo sanguíneo genital sem melhoria subjetiva | 2002 |
As correntes mais modernas do estudo da sexualidade feminina têm investigado, contudo, o que chamam de desejo sexual responsivo, aquele que surge como consequência de um estímulo.
- Em Portugal, não existe um medicamento aprovado pelo Infarmed equivalente ao Viagra masculino para uso feminino.
- O termo "Viagra feminino" é frequentemente usado para descrever medicamentos que tratam a Perturbação do Desejo Sexual Hipoativo (PDSH) em mulheres.
- A flibanserina (Afil) foi aprovada nos Estados Unidos para tratar o desejo sexual baixo, mas não está disponível no mercado português.
- Outro fármaco, a bremelanotida (Vyleesi), é uma injecção usada antes da relação sexual, mas também não está autorizada em Portugal.
Uma das cientistas que introduziu esse conceito no início dos anos 2000 foi a canadense Rosemary Basson.
- Alguns antidepressivos, especialmente os ISRS, podem reduzir significativamente o desejo e a excitação sexual feminina.
- Falar com o médico assistente sobre ajustar a medicação pode resolver problemas de libido induzidos por fármacos.
- Doenças como a diabetes, a tiróide ou a endometriose afectam directamente a função sexual feminina.
- O tratamento da condição médica subjacente é frequentemente mais eficaz do que procurar um "Viagra feminino".
A pesquisadora também é autora da ideia da resposta sexual cíclica, que questiona o esquema da resposta sexual feminina como algo direto e linear - desejo, excitação, orgasmo e resolução.
Principais remédios para aumentar a libido feminina
Nos testes clínicos, o aumento no número de episódios sexuais satisfatórios (uma medida relativamente subjetiva usada pelo órgão regulatório americano, o FDA, para avaliar essa categoria de medicamentos) observados em um mês entre as participantes ficou entre 0,5 a 1, quando comparado aos resultados do grupo submetido ao placebo. Ou seja, no intervalo de um mês, as mulheres que tomavam o medicamento relataram um episódio sexual satisfatório - ou menos - a mais do que aquelas que o não tomavam. Muita gente considerou que o custo-benefício não valia a pena. Ao contrário do viagra, o flibanserin tem de ser tomado diariamente, e pode causar tontura, fadiga e náusea. Também não pode ser consumido por mulheres que ingerem álcool - como o uso é diário, quem opta por tomá-lo tem de parar de beber.
1. Flibanserin
A droga chegou a ser rejeitada duas vezes pelo Food and Drug Administration (FDA), o órgão regulatório americano, antes de ser aprovada. Uma das vozes críticas foi a da professora do departamento de Psicologia da Universidade de Utah Lisa Diamond, que pesquisa a sexualidade feminina. A cientista chegou a participar, a convite da farmacêutica que lançou o flibanserin, de um painel com especialistas que simulava o formato adotado pelo FDA - um procedimento que as empresas às vezes fazem para se preparar melhor para o processo "real". Com acesso aos dados da pesquisa, chamaram-lhe atenção os registros diários dos relatos dados pelas participantes aos pesquisadores e o fato de que as mulheres que estavam no grupo placebo também tinham experimentado aumento da libido. "A partir do momento em que as mulheres começaram a se perguntar sobre desejo, elas passaram a sentir desejo! Para Basson - e uma legião de cientistas hoje -, as coisas não são tão simples assim. O modelo linear tradicional, que vem de estudos das décadas de 60 e 70, ignora o que ela descreve como "componentes importantes da satisfação da mulher: confiança, intimidade, respeito, comunicação, afeto e prazer pelo toque".
Testosterona: a hormona do sexo?
Não seria mais barato comprar um diário do que tomar uma pílula? "Nós obviamente depreendemos de dados como esses que o desejo é uma experiência complexa. Não é como uma bolha que estoura, é uma experiência consciente. E se a única maneira pela qual você consegue medir é perguntando às pessoas, o dado é enviesado. É diferente de uma ereção, que é algo observável.
Qual o efeito do flibanserin?
A excitação feminina é tão mais complicada..." Nesse sentido, Diamond menciona uma área de pesquisa da sexualidade feminina chamada de estudos de concordância, que investiga a conexão e desconexão entre a resposta sexual fisiológica e a resposta cerebral. Nos homens, na maioria das vezes a excitação sexual subjetiva - ou seja, o que acontece no cérebro - conversa com o que está acontecendo na genitália. O homem sente desejo e tem uma ereção. No caso das mulheres, é mais comum que ocorra uma desconexão entre as duas esferas. Uma mulher pode ter sinais físicos de excitação - o aumento de fluxo sanguíneo para a vagina e clitóris, por exemplo -, mas não necessariamente sentir desejo ou vontade de se engajar em alguma atividade sexual, e vice-versa. Segundo ela, a resposta sexual das mulheres pode ser linear - quando não têm parceiro fixo, no início de um relacionamento, por exemplo. Já mulheres em relacionamentos mais longos tendem a experimentar a resposta sexual cíclica, em que desejo e excitação são etapas de um processo que se retroalimenta e também envolve intimidade emocional e estímulos sexuais psicológicos. Essa discussão é importante não apenas para entender melhor as mulheres, mas para saber diferenciar o que são problemas que de fato precisam de tratamento e o que é da natureza da sexualidade feminina.
Viagra masculino: uma descoberta acidental
"Pessoalmente acho que muito disso tem a ver com o fato de que, para os meninos, quando estão crescendo, é mais fácil ligar os sentimentos com o que está acontecendo no corpo. Meninas não são encorajadas a explorar o próprio corpo e não têm a menor ideia do que está acontecendo lá embaixo - então muitas mulheres acabam dissociando o corpo da cabeça", diz a pesquisadora. "E a ideia de que você pode consertar isso com uma pílula é uma loucura, é não entender a complexidade do desejo sexual." Outras abordagens farmacológicas - como o Vyleesi, injeção de bremelanotida aprovado nos EUA em 2019 para mulheres em pré-menopausa com baixa libido - tampouco se mostraram frutíferas. Parte do fracasso pode ter relação com o fato de que o como tomar viagra corretamente desejo tem uma dimensão psicológica relevante para as mulheres. É o que ajuda a explicar, por exemplo, porque a baixa libido as afeta mais que aos homens. Lori Brotto, diretora do Laboratório de Saúde Sexual da Universidade da Colúmbia Britânica, vem estudando o uso de mindfulness (atenção plena) para tratar mulheres com baixa libido, com resultados bastante positivos. Por meio da prática, ela conta, as mulheres conseguiram ganhar mais consciência das mudanças físicas que acontecem antes e durante a atividade sexual - a vasocongestão ou as sensações parecidas com "formigamento" típicas da excitação -, o que pode lhes ajudar a aumentar ou manter o desejo sexual subjetivo. "Vimos que o mindfulness também atua sobre a miríade de pensamentos negativos que as mulheres com problemas sexuais têm de si mesmas, reduz o nível de autocrítica e aumenta a autocompaixão." Prause acredita que, a essa altura, a indústria farmacêutica tenha desistido de procurar uma pílula que resolva os problemas sexuais das mulheres. "O que tenho visto são startups tocadas individualmente por alguns cientistas com ideias mais inovadoras." A sua startup, a Liberos, ainda realiza pesquisas, mas recentemente a cientista voltou à UCLA.
- A terapia sexual com psicólogos especializados em sexologia clínica é uma abordagem eficaz e disponível em Portugal.
- Exercícios de Kegel podem melhorar a circulação pélvica e a sensibilidade durante a relação sexual.
- A comunicação aberta com o parceiro sobre preferências e dificuldades é essencial para melhorar a vida sexual.
- Reduzir o consumo de álcool e tabaco tem um impacto positivo comprovado na função sexual feminina.
- O sono adequado e a gestão do stress são factores fundamentais para manter um desejo sexual saudável.
Da última vez em que esteve ligada à universidade, em meados dos anos 2010, ela começou a enfrentar dificuldade para continuar seus experimentos em psicofisiologia sexual quando um "senhor" que tinha bastante poder sobre a política de financiamento de pesquisa na instituição "parecia realmente incomodado" com o que ela se propunha a investigar.
Só para tratar transtornos
Homens têm ereções consistentemente na presença de mulheres nuas e querem fazer sexo. Com as mulheres, as coisas dependem de uma miríade de fatores." Depois do fracasso, as farmacêuticas gradativamente fecharam as torneiras e o ciclo do financiamento abundante para pesquisas em fisiologia sexual minguou. Prause, que a essa altura já estava no departamento de Psiquiatria da Universidade da Califórnia como pesquisadora associada, começou a enfrentar resistência interna na instituição para continuar tocando um estudo sobre orgasmo e depressão. Apesar de ter conseguido financiamento privado para sua pesquisa, ouviu da universidade que não poderia aceitar o dinheiro - uma postura que ela atribui ao caráter "controverso" de sua pesquisa. Terminado seu contrato com a UCLA, ela resolveu fundar a Liberos, um instituto de pesquisa independente.
Flibanserin é o mesmo que Viagra?
"Há ainda um grande estigma em relação a qualquer coisa que se proponha a lidar com viagra necessita receita medica problemas sexuais das mulheres", diz ela. "Uma pílula é considerado algo 'aceitável', mas qualquer coisa mais ligada à sexualidade é vista por muitas empresas como algo que pode causar dano à imagem, algo que pode ser visto como pornográfico. Passadas quase duas décadas, uma farmacêutica não havia desistido do viagra feminino - mas focava em outro órgão, o cérebro. Em 2015, a Sprout colocou no mercado o flibanserin, medicamento originalmente desenvolvido como antidepressivo e que atua nos níveis dos hormônios dopamina e serotonina com a promessa de aumentar a libido feminina. A droga foi recebida de forma crítica pelos especialistas.
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